quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Sobre cotidianos e saudades

Sobre cotidianos e saudades

Levantava...muitas vezes sem dormir, mas levantava. Tinha compromissos com a vida, dessas miudezas que impedem a gente de parar na dor. O primeiro pensamento era para a sua saudade, nessas horas pensava em permanecer deitada, passar os dias e noites desenhando no próprio coração o rosto de quem se fora, mas levantava.
Lembrava-se do adeus e fazia tudo lentamente. Não tinha mais urgências, nada era tão necessário depois que seu amor partira. Nos afazeres cotidianos ia conversando com sua saudade, fazendo a comida, olhando pro lugar vago ao dispor a mesa...parecia que seu pequeno mundo estava repleto dessa saudade, como se a ausência trouxesse mais presença, estranhava, tanta presença na ausência era dolorido demais, mas seguia.
Após findar essas coisas que a faziam levantar-se todos os dias, suspirava, ia pra varanda, molhava as plantas, puxava uma cadeira, tecia histórias no véu da memória, olhava pro verde do jardim e, como se fosse mágico, via cenas de sua vida ao lado de quem tanto lhe faltava. Nessas horas sentia vontade de reter o tempo, parar os relógios do mundo.... Chorava, sorria, chorava, sorria, e nesse vaivém percebeu que algumas coisas eram dela, não havia jeito de ninguém tirar. Chorava e sorria, fazendo as pazes com os beija-flores, as plantas, Deus e a própria vida... chorava e sorria.
(Teresa Gouvea)

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