Sobre cotidianos e saudades
Levantava...muitas vezes sem dormir, mas levantava. Tinha compromissos
com a vida, dessas miudezas que impedem a gente de parar na dor. O
primeiro pensamento era para a sua saudade, nessas horas pensava em
permanecer deitada, passar os dias e noites desenhando no próprio
coração o rosto de quem se fora, mas levantava.
Lembrava-se do adeus e fazia tudo lentamente. Não tinha
mais urgências, nada era tão necessário depois que seu amor partira.
Nos afazeres cotidianos ia conversando com sua saudade, fazendo a
comida, olhando pro lugar vago ao dispor a mesa...parecia que seu
pequeno mundo estava repleto dessa saudade, como se a ausência trouxesse
mais presença, estranhava, tanta presença na ausência era dolorido
demais, mas seguia.
Após findar essas coisas que a faziam
levantar-se todos os dias, suspirava, ia pra varanda, molhava as
plantas, puxava uma cadeira, tecia histórias no véu da memória, olhava
pro verde do jardim e, como se fosse mágico, via cenas de sua vida ao
lado de quem tanto lhe faltava. Nessas horas sentia vontade de reter o
tempo, parar os relógios do mundo.... Chorava, sorria, chorava, sorria, e
nesse vaivém percebeu que algumas coisas eram dela, não havia jeito de
ninguém tirar. Chorava e sorria, fazendo as pazes com os beija-flores,
as plantas, Deus e a própria vida... chorava e sorria.
(Teresa Gouvea)

Nenhum comentário:
Postar um comentário