As várias faces do LUTO
A cultura brasileira faz com que vejamos o luto apenas como o
sentimento vivenciado após a morte de pessoas queridas, mas ele se
refere também a outras formas de perdas.
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A psicóloga Isaura von Zuben Lemos, especialista em psicologia hospitalar com formação em morte, luto e perdas.
“O luto é uma reação emocional a uma perda signifi cativa. É um
processo natural e um modo de
recuperação emocional face à perda”.
Embora seja considerado um processo natural e universal, pois todas as
pessoas passarão por essa experiência, as maneiras de vivenciá-lo
dependerão da relação de apego vivida na primeira infância. O apego
seguro, inseguro ou ambivalente (ansioso) da criança é o que vai
determinar as reações no período em que se confrontar com o luto.
Apesar de o luto ser considerado um período natural da vida, a maioria
das pessoas não está preparada para vivê-lo. Na cultura ocidental, a
população é preparada para ter e não para perder. O sim e o não dos pais
durante o processo educacional também influenciarão nessa fase da vida.
Com essa formação, a separação, a perda pode desencadear vários
processos de dependência, inclusive pode levar a depressão.
Por
essas razões, que influenciam na saúde e qualidade de vida das pessoas,
o entendimento do processo do luto, bem como a procura de ajuda
profissional são essenciais para que as pessoas possam enfrentar a nova
realidade e evitar o surgimento de doenças ou de dependências. Em
Passos, Isaura von Zuben Lemos trabalha especificamente com o luto. “O
momento da perda é um momento único. É nessa missão que consigo
desempenhar bem a minha função”, disse a psicóloga. Isaura é natural de
Campinas, mas trabalha em Passos há mais de 2 anos. É especialista em
psicologia hospitalar com formação em morte, luto e perdas. Além dessa
formação, acredita que a formação humanista que teve dos pais, muito
contribui para a sua função e a necessidade que sente de ajudar pessoas.
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“Há alguns anos, as manifestações eram mais aceitas, as pessoas
vivenciavam o período do luto, o que é muito importante. Hoje a dor do
outro incomoda”, ressaltou. Esse processo de encobrir a dor ou de não
deixá-la se manifestar pode trazer sérios problemas para a vida pessoal.
Ainda segundo Isaura, aquele que não vivencia o luto após a perda vai
vivenciá- lo de qualquer forma, pois ele surge na vida das pessoas. “Os
rituais são extremamente importantes para vivenciar a transformação.
Entre esses rituais está a vivência do velório, que é o tempo do morto e
das manifestações da dor coletiva”, esclareceu.
Embora a dor e
a saudade marquem a vida das pessoas quando perdem entes queridos, o
tempo considerado pelos profissionais como sadio para se vivenciar o
luto é de um ano. “É nesse período que a pessoa vai sentir a ausência
nas datas mais significativas como os aniversários, Natal, Réveillon”,
pontuou Isaura. Se esse período de luto persistir deve-se procurar um
profissional.
Para identificar o processo que cada pessoa
vivencia em relação ao luto é preciso entender as relações humanas na
primeira infância. Se a criança teve apego seguro, aquele sentimento que
mesmo estando longe da mãe a criança se sente segura, ela terá
facilidade para vivenciar a perda. Quando a criança viveu o apego
inseguro ou o ambivalente enfrentarão mais difi culdades no processo do
luto. A criança insegura é dependente da mãe e a ambivalente, chora
muito e estando longe da mãe nunca sabe se ela vai voltar.
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O LUTO
Mas o luto está relacionado a várias formas de perdas e não somente a
morte de um ente querido. A aposentadoria, a separação, a morte de um
animal de estimação também podem desencadear um processo de luto muitas
vezes difícil de ser diagnosticado.
A perda de um objeto, a
amputação de um membro do corpo, uma doença crônica são classifi cados
como luto não reconhecido. Entre outras formas está o luto inibido, onde
a pessoa não expressa a sua dor. No luto adiado a pessoa não se permite
sofrer e no crônico, são mantidos os hábitos do falecido como o lugar à
mesa, o quarto arrumado, a aliança no dedo para os casados. A terapia é
um ponto de apoio nesse processo. “As pessoas precisam encontrar novos
valores signifi cativos para viver. Nunca é tarde para ser feliz”, disse
Isaura.
AS FASES DO LUTO
Perder alguém dói (muito), a
sensação é de que nosso coração vai rasgar, vai parar e não vamos
conseguir seguir em frente. Nesse momento estamos em choque e não é
possível ver uma saída para tanto sofrimento e, por isso, é importante
aceitar a dor e vivenciá-la (chorar, entristecer, gritar, etc) e não
“esconder” ou “abafar” os sentimentos, pois em algum momento eles virão à
tona.
O choque é a primeira das 5 fases do luto, as demais são:
Negação: É um mecanismo de defesa da pessoa que a leva a não acreditar
ou a não querer acreditar no que aconteceu. Geralmente, a pessoa usa
expressões do tipo “Eu não acredito que isto me tenha acontecido”, “não
pode ser possível”. A impressão é que a pessoa morta vai entrar a
qualquer instante pela porta.
Culpa: Trata-se de um sentimento
muito comum. As pessoas começam a pensar em tudo o que poderiam ter dito
ou feito para impedir essa morte.
Depressão: Estágio em que
ocorrem mudanças súbitas de emoções (crises de choro, momentos
depressivos, raiva, isolamento). Apesar de preocupante, é uma fase
essencial para que a pessoa possa fazer uma análise mais franca sobre o
ocorrido.
Aceitação: É onde a pessoa começa a ter consciência do que aconteceu e se prepara para voltar as suas atividades.
É importante dizer que a morte não traz apenas a perda de uma pessoa
querida, mas de todo contexto em que ela vivia, como por exemplo: os
afazeres da casa, pagamentos, passeios, etc.
É comum
encontrarmos senhoras viúvas que nunca foram a um supermercado ou que
não sabem a senha do cartão do banco, pois isso era atribuição do marido
falecido. Por isso, a morte sempre traz um recomeço onde é preciso
aprender sem a ajuda da pessoa que se foi.
Em muitos casos a
dor da perda se agrava na existência de algum tipo de confl ito, onde
não havia uma boa convivência. É uma situação bastante delicada, pois
normalmente um simples “me desculpa” resolveria a situação.
Apesar da caracterização de cada uma das fases, cada pessoa reage de uma
maneira. A manifestação pode surgir seguindo cada uma das fases ou
alternadamente.

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