MÃES SOBREVIVENTESQuando uma criança nasce os pais têm, inevitavelmente de mudar as rotinas das suas vidas e quando este filho parte, volta a ser necessário uma reorganização nas suas vidas.
Antes, tínhamos as preocupações com a sua formação, educação, futuro…depois, tudo se resume a uma única pergunta: “Como vou viver sem ele?”
O amor e a dor caminham sempre de mãos dadas na nossa história e a dor é proporcional ao tamanho desse amor. Amamos os nossos filhos muito mais que a nós próprias e quando os perdemos é natural que “fiquemos sem chão” e que cheguemos mesmo muito próximo da loucura. No entanto, todas nós temos mecanismos de defesa que nos ajudam a voltar à realidade de acordo com as possibilidades psíquicas de cada uma. Para algumas é um processo muito lento, diria mesmo a “conta-gotas”, para outras, um pouco mais acelerado mas a verdade é que todas nós sem exceção, passamos por um enorme torpor e uma certa negação temporárias.
Temos de entender que o tempo de reação diante desta nova realidade é acima de tudo interno pois depende dos mais variados fatores, tais como a personalidade de cada uma, as suas crenças, a capacidade de resiliência, as condições da perda e tantas outras.
Quando soube da partida do André Bessa, o meu coração ficou apertado e o meu pensamento foi logo para a sua mãe…Senti a sua dor como se fosse minha e de imediato, fui transportada para o dia 26 de janeiro de 1987, data em que o meu filho partiu, vítima de acidente de automóvel.
Senti que deveria fazer algo para ajudar mas depois de passar as primeiras emoções depressa me lembrei de que em cima do acontecimento, nenhuma palavra a poderia ajudar. Nessa altura não vemos, não escutamos, não assimilamos absolutamente nada porque estamos centrados exclusivamente no nosso filho, na nossa dor e tentando perceber o que nos está a acontecer. A melhor forma seria sem dúvida, dar-lhe um abraço de mãe para mãe, um abraço daqueles em que não são necessárias palavras …e foi isso mesmo que fiz.
Em 2009 a Judite de Sousa entrevistou-me enquanto presidente da extinta associação “A Nossa Âncora” e a forma como abordou o tema sensibilizou-me muito, bem como a milhares de pais. Quem diria que anos mais tarde, viria, também ela, a passar pela mesma dor? Ironia do destino…
O caminho a percorrer vai ainda ser duro, cheio de obstáculos a transpor mas aos poucos irá aprendendo a contorná-los e conforme for caminhando, a dor tornar-se-á menos agreste. Por sua vez, as saudades aumentarão, mas essas saudades que no início são demasiado dolorosas irão sendo suavizadas aos poucos e um dia, a lágrima será substituída pelo sorriso quando as memórias a visitarem.
A princípio, tudo isto que digo poderá parecer impossível e os pais que apoiei e que no início diziam nunca o conseguir, mais tarde vieram ter comigo dizendo-me que afinal eu tinha razão e alguns deles chegaram mesmo, a ser uma ajuda fundamental no luto de outros pais.
Quando o meu filho partiu, parecia que o meu corpo e a minha carne se iriam rasgar de tanta dor e também eu achei que não seria capaz de continuar. Queria ir ter com ele, queria voar, rasgar o céu para ir ao seu encontro...um desespero total! Um pedaço de mim tinha partido para sempre com ele tal como aconteceu com a Judite e com todas as mães que conheci. Como mulher de fé, hoje sinto que também eu, estou bem juntinho de Deus através desse bocado de mim que partiu com o meu filho.
Por mais que as pessoas tentem entender o que sentem os pais num momento destes, existirá sempre um abismo entre as suas suposições e a realidade. A dureza dos factos, a irreversibilidade do acontecimento e a ligação com a finitude da vida, só sente quem realmente a vive.
Aprender a conviver sem a presença física do nosso filho(a) é a única saída saudável para continuar a viver diante duma nova realidade que nos foi imposta. Sei que isto não é fácil mas não temos alternativa. Temos de aprender da melhor forma, a conviver com essa ausência e com todas as recaídas que ela acarreta.
O que eu fui aprendendo ao longo da minha caminhada já longa, foi perceber quais os meus limites em relação à perda e aprender a contornar da melhor forma, as crises que surgem muitas vezes quando tudo parece mais tranquilo.
A morte não nos dá alternativas a não ser lidar com a vida que fica porque a partida do nosso filho(a), infelizmente não tem retorno.
A única solução é pois, em nome dos nossos filhos, proclamar o dom da vida.
Temos de ter bem presente que um filho não morre, segue vivo na nossa memória, nos nossos corações e em tudo o que fazemos. É como se ele fosse o pano de fundo de todas as nossas emoções. Jamais deixamos de ser mães. Não existem “ex - mães”.
Como também não existe uma palavra que defina uma mãe que perde um filho(a), muitas pessoas apelidam-nas de “mães coragem” mas eu prefiro chamar-lhes de “mães sobreviventes”, porque ao continuarem estão a sobreviver à maior tragédia que uma mãe pode viver e como qualquer sobrevivente, as feridas e as mutilações da alma são uma realidade com a qual teremos de aprender a conviver e a cuidar da melhor forma. Cada uma o fará à sua maneira e ao seu próprio ritmo e é muito importante que aqueles que nos rodeiam, não nos pressionem respeitando o tempo de cada uma, que nunca é igual. Ao longo da nossa vida, iremos precisar muitas vezes de ter espaço para chorar, para estar triste, para ficarmos a sós com o nosso filho e isso não significa que tenhamos desistido. Eu, ainda hoje, ao fim de 27 anos, necessito desses momentos.
Há quem pense que se não falarmos do filho que morreu podemos apagar o que aconteceu mas a verdade é que a falta de uma pessoa tão amada não pode ser ignorada, esquecida ou deixada de lado, precisa, isso sim, de ser reposicionada e essa reposição implica não negarmos o que aconteceu e podermos falar do filho(a) sem qualquer tipo de restrições.
Evitar falar do filho(a) seria o mesmo que estarmos a reafirmar a posição de que ele precisa ser realmente esquecido e isso é tudo o que nós não queremos!
Teremos acima de tudo, de aprender a conviver com a parte espiritual do nosso filho. Leva tempo, dá muito trabalho, faz cair muitas lágrimas mas é possível e quando isso acontece, somos invadidas por uma enorme paz e serenidade…
Acreditem que o mais difícil é recomeçar. Começar de novo o que não acabou…
Porque só não acaba o que é eterno.
Mila Agostinho
(in Os Nossos Principes)
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