"Outro
dia, eu estava voltando do trabalho e, subitamente, fui tomada pelo
pressentimento de que algo acontecera com minha filha adolescente.
Naquela manhã, ela se queixara de um leve resfriado e, de repente,
quando eu estava ali, sentada, presa no vagão do metrô várias horas
depois, suspeitei de que não era resfriado nenhum, e sim algo mais
grave.Comecei a suar frio e a tremer. Senti vontade de sair do metrô e correr para casa, mas o bom-senso me disse que seria mais rápido continuar a bordo. Quando finalmente cheguei à minha estação, subi correndo a escada rolante e percorri os últimos metros até a minha casa quase correndo.
Quando enfiei a chave na fechadura, meu coração disparava. Mas, felizmente, a cena que encontrei era calma e normal. A TV estava ligada e, quando entrei, minha filha ergueu os olhos do dever de casa. “Tudo bem, mãe? Parece que você viu um fantasma.”
Ela estava ótima; a dor de garganta e a de cabeça que sentira pela manhã, totalmente esquecidas.
E também estava certa. Eu vira um fantasma. Um fantasma que me aparece nos momentos mais comuns do dia e que me perturba o sono, me faz revirar na cama e ter pesadelos. Porque tive épocas na vida em que o medo de que algo terrível estava para acontecer era justificado. E tive de enfrentar o impensável. Levo dentro de mim o conhecimento de que nem tudo na vida dá certo.
O nome da minha filha é Hope, que significa esperança, em inglês. Dei-lhe esse nome por uma boa razão: quando eu estava grávida, cada dia foi uma batalha para continuar alimentando a esperança, sem sucumbir ao medo.
Na década de 1990, eu tinha tudo, ou quase tudo. Era mãe, jovem e bonita, pelo menos me sentia assim, casada com um homem muito bonito que, além disso, era um repórter investigativo ousado e corajoso do semanário britânico The Observer. Tínhamos uma filha linda, de cabelos dourados, e queríamos mais filhos. Então, John, o meu marido, começou a se queixar de cansaço e falta de ar. Os exames mostraram que ele estava com leucemia, e ele enfrentou uma quimioterapia pavorosa.
Agora parece ridículo dizer isso, mas não estávamos muito preocupados. É óbvio que o tratamento foi devastador: quase imediatamente ele ficou careca e os efeitos colaterais foram péssimos. Mas aguentamos, porque achamos que ele se recuperaria. Não se recuperou. John morreu em 1992, com 35 anos. Poucas semanas depois descobri que estava grávida do nosso segundo filho.
E lá estava eu, viúva, com uma filha de 3 anos e grávida. Que fazer? Ora, com uma filha para sustentar e outro bebê a caminho, só havia uma coisa a fazer: trabalhar. Naquela época, eu tinha um emprego numa revista que pagava muito mal, mas somando a pensão de viúva consegui contratar uma babá. O dinheiro era pouco, mas a babá era uma verdadeira Mary Poppins; tínhamos um teto sobre a cabeça e fomos em frente.
Em janeiro de 1993, a filha póstuma de John entrou apressada no mundo e mal me deu tempo de chegar ao hospital. De cabelo dourado como o pai e a irmã, não chorou, só olhou em volta com curiosidade. Chamei-a Hope, nome que John e eu tínhamos combinado antes da morte dele.
Ser mãe solteira nunca é fácil, mas os amigos e familiares ajudaram. Fui promovida no emprego e os problemas financeiros diminuíram. Embora eu sentisse falta de John e me sentisse revoltada com a interrupção de sua vida, não me preocupava com o azar. Com certeza, enviuvar grávida já era sofrimento bastante na vida de alguém.
Mas não foi o bastante. Pouco antes do 9º aniversário, Ellie, minha filha mais velha, apareceu com um resfriado que não sarava. Fizemos exames no hospital e veio a notícia quase insuportável de que ela também estava com leucemia. Disseram que a probabilidade de a doença afetar pai e filha é de uma em um milhão. Mas que diferença faz a probabilidade quando essa família é a nossa? A luta pela vida de Ellie foi de cortar o coração, mas ela perdeu a batalha em junho de 1998.
Dizem que a gente nunca se recupera da morte de um filho, e sei que é verdade. Para mim e Hope, seguiram-se alguns anos muito sombrios, até que certo dia decidi me mudar para uma região com melhores escolas. Um corretor de imóveis tocou a campainha, abri a porta e pronto! Caí de paixão. Hope também gostou dele na hora, e dali a 18 meses eu e Mark nos casamos.
Em nosso casamento, em 2004, entramos na igreja ao som de Here Comes The Sun (Aí vem o sol), dos Beatles, e foi mesmo como se o sol viesse depois daqueles tempos sombrios. Com certeza, não haveria sofrimentos. Certeza?
Tivemos dois anos e meio de casamento feliz, até que descobri um nódulo no seio direito. Era câncer.
Nunca fui do tipo de pessoa que pergunta “Por que eu?”. Em vez disso, tendo a pensar Por que não eu?. Afinal, as perdas da minha família, por mais trágicas que sejam, não são diferentes das que sofrem as famílias no mundo. Mas o câncer me atingiu duramente, não só porque tive de passar pela quimioterapia. Foi também uma recordação muito dolorosa do sofrimento por que passaram John e Ellie. Durante o primeiro semestre de 2007, visitei seus túmulos, careca e enjoada, quase incapaz de suportar a lembrança do que tinham sofrido. E, sim, também tive medo de morrer. E fiquei com vergonha da intensidade com que ansiei por permanecer ao lado do meu marido e da minha filha vivos, em vez de me unir aos que perdera.
Pois é, sobrevivi e o meu prognóstico é bom. Não é 100%, mas, ora bolas, qualquer um de nós pode ser atropelado. E tudo está voltando ao normal. Quem me conhece há pouco tempo e não sabe da minha história pode até dizer que tenho sorte. Hope cresceu, é uma adolescente lindíssima que estuda muito para as provas finais do ensino médio. Mark e eu enfrentamos o impacto devastador do câncer no início da relação, e por isso o nosso casamento ficou mais fortalecido. Como continuei trabalhando, construindo minha carreira, tenho agora um emprego que adoro: sou editora da revista Good Housekeeping. Sei bem que, nesta época, com esta idade, não dá para achar que tudo está sob controle.
Quem tenta me animar diz que depois da tempestade vem a bonança, e que agora o meu azar acabou. Infelizmente, acho que o universo não funciona assim. Não existe um contador no céu anotando os pontos positivos e negativos da minha vida e pensando: Lindsay já teve muito azar; vamos lhe dar um prêmio na loteria como compensação. (Embora toda semana eu compre um bilhete, quem sabe estou errada?) A verdade é que ainda tenho muito medo do que a vida me reserva e vejo perigo em cada esquina. Por isso o ataque de pânico no metrô.
Então, como consigo levar uma vida relativamente normal, se, para ser honesta, há dias em que sinto que ficar deitada na sarjeta, com os transeuntes me jogando moedas, seria uma reação bastante sensata para tudo o que me aconteceu? Fui forçada a elaborar uma filosofia de vida que me ajuda a lidar com os reveses e com a lembrança deles. Não é perfeita e não pretendo ter todas as respostas. Mas acho que vale a pena passá-la adiante, para o caso de que possa ajudar alguém que leia este artigo e esteja passando por dificuldades.
1. Não tenha medo de não fazer nada.
Quando as más notícias chegam, a reação inicial será turvada pelo choque e pela negação. Esse não é um bom momento para tomar grandes decisões como mudar de casa, terminar um relacionamento ou largar o emprego. Se possível, tente deixar o primeiro ano passar, sem se comprometer com uma grande decisão.
2. Entenda o processo do luto.
Depois do choque e da negação, vêm a raiva e a negociação, depois a depressão. São reações normais e não são causadas apenas pela perda de um ente querido. Todo tipo de perda, como divórcio, demissão ou diagnóstico de uma doença que leve à perda dos sonhos no futuro, provoca esses sentimentos.
3. Peça socorro. Não sei por que alguém pensaria que é capaz de superar os eventos avassaladores da vida sem o apoio de auxiliares qualificados e compassivos. Passei por muito aconselhamento e terapia, e digo honestamente: não chegaria aonde cheguei sem isso. Se o dinheiro for pouco, é possível se candidatar a um grupo de aconselhamento ou de apoio em instituições de caridade ou no sistema público de saúde. Ou talvez você encontre um amigo que entenda a situação para lhe dar suporte; mas é melhor que seja alguém fora do seu círculo mais íntimo. A família e os amigos talvez não aguentem caso você tenha uma explosão de raiva ou se afunde na depressão.
4. Lembre-se do que funciona há séculos. Se você acha insuportável fazer terapia, pense nas construções que existem em todos os lugares do mundo, projetadas com o propósito de ajudar as pessoas a lidar com algum terrível sofrimento. São igrejas, sinagogas e templos, que trazem consolo desde tempos imemoriais. Se você foi criado numa religião, pense em voltar a ela. E mesmo que não tenha sido, procure uma igreja, entre e sente-se: só isso já pode dar algum alívio.
5. Seja bondoso consigo mesmo. Os aniversários são datas delicadas. Depois de alguns quase acidentes, não me permito sequer dirigir nessas datas. Certa vez, consegui tropeçar no meu próprio pé no aniversário da morte de Ellie e quebrar o nariz. Hope e Mark dizem que precisam me enrolar em algodão nessas épocas.
6. Aguarde o Novo Normal. Você não terá a vida antiga de volta; e, se perdeu alguém que amava, também não vai querer viver sem essa pessoa. Não dá para esquecer simplesmente. Mas, por maior que seja a dor, a situação vai acabar se normalizando, e você terá de aceitá-la como é, em vez de pensar no que era. Mas dê um tempo. Um tempo de anos, não de semanas ou meses. Depois da morte natural de alguém, os terapeutas dizem que o luto dura até quatro anos. No caso de uma morte trágica ou não natural, pode se preparar para sete anos ou mais.
7. Mantenha a esperança. Tudo pode melhorar. Talvez os fatos não sejam como você gostaria, mas ainda assim pode haver prazer e alegrias inesperadas. O nome que dei ao meu bebê sem pai foi mais visionário do que percebi na época. Durante as minhas horas mais difíceis, o fato de, por motivos puramente práticos, eu ter de dizer o nome de minha filha várias vezes por dia me recordava que havia a possibilidade tanto do bem quanto do mal, tanto da luz quanto das trevas, da vida e da morte. E, no fim, essa crença é tudo o que nós, sortudos ou azarados, temos."
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