sexta-feira, 25 de setembro de 2015

“Falar da morte de um filho


Ricardo Bocão: ‘O vazio foi sendo substituído’
Seu filho Vitor faleceu em 2012, aos 13 anos, em casa. Teve morte súbita, como se o corpo se desligasse sozinho

: ‘Vamos pegar onda juntos?’, costuma dizer - Mônica Imbuzeiro / O Globo

“Falar da morte de um filho é a coisa mais absurda de que um pai pode falar. A minha paixão pelo Vitor e pelo Bruce é incalculável. O que aconteceu, um ano atrás, foi uma bomba atômica.

O problema é que aquela bomba só estoura para você. Quando ocorre um negócio desses, na parte de fora está tudo normal. Você chega na praia para pegar onda, e está tudo normal, as pessoas estacionando, saindo do carro. Fica muito difícil encarar uma realidade tão diferente da sua. Os primeiros dez dias são cruéis: IML, missa, anúncio no jornal. De manhã, para mim, era o pior horário. Você acorda e não quer acordar. O efeito da bomba atômica não passa em cinco minutos. Parece que vai durar a vida inteira.

No começo, fiquei sob efeito de adrenalina e não sabia. Falei para um grande amigo meu: “Tô me sentindo 20 ou 30% mais forte, com reflexo mais apurado, ouvindo melhor”. Eu sei que era adrenalina porque eu pego onda em Waimea (praia havaiana em que as ondas chegam a dez metros), tenho doses naturais disso. Depois, fui perceber que era instinto de sobrevivência; uma sensação forte que tive no primeiro dia, no hospital, de que tinha que tomar conta da minha família.

Sei que o ser humano é ávido por sinais. Alguns você transforma no que deseja ver, mas alguns ficam difíceis de não acreditar. Antes da Missa de Sétimo Dia, fui surfar. O mar estava perfeito: as ondas, o sol, a cor da água. Eu estava com o meu sobrinho Taz e o Carlos Gama. O Rico de Souza, sem que eu soubesse, também estava lá me esperando. Meus amigos sempre estiveram muito perto. Não tinha quase ninguém na água, eu pude surfar tranquilo. Pensei: “O Vitor organizou isso para mim”.

Fui pegar onda porque queria estar de alma limpa. Mas, quando voltei da missa, estava mal. Tive febre, pressão baixa, comecei a suar. Depois daqueles sete dias de adrenalina contínua, foi como se minha energia tivesse sido sugada. Acordei fraquíssimo por uns dois dias, mas, depois, voltei a surfar. A Luciana, minha mulher, preferia ficar em casa. Eu dizia para ela: “Vamos para a luz, vamos caminhar na praia”, mas não adiantava. Por outro lado, ela sempre lia e relia (e ainda relê) as cartas que os amigos do Vitor nos enviaram. Eu tentei, não conseguia passar da quarta, quinta carta. Percebemos, com ajuda especializada, que o nosso processo de luto era diferente, e passamos a respeitar isso.

A Luciana diz que é uma montanha-russa, e eu concordo, mas a minha visão é de que ela tem ido para a frente e para o alto lenta e gradualmente. O Bruce, nosso filho mais velho, também tem sido muito presente, do nosso lado, e muito carinhoso com a mãe. Os amigos do Vitor e os pais deles sempre mandaram cartas. Um dia se vestiram de branco para homenageá-lo na escola. Nossa família e nossos amigos são nosso pilar mais forte. Essa rede de apoio ajuda a nos manter de pé.

O meu luto funciona assim: fiz um pacto comigo para viver homenageando o tipo de vida que o Vitor viveria. O luto, principalmente no início, é como um vazio que você tem que ir preenchendo. Com o tempo, o vazio foi sendo substituído pela lembrança da vida do Vitor. Hoje, sinto que é como se ele estivesse andando ao meu lado, com todos os exemplos de alegria que um garoto livre de qualquer negatividade aos 13 anos pode nos dar.

A gente tem a convicção de que foram 13 anos maravilhosos, que foi um privilégio ter feito parte disso. Quando penso que isso foi interrompido, dói. Mas aprendi muito rápido a não perguntar por quê. Não tenho questionamento místico, não pendi para a religiosidade.

Um cara me disse que o Vitor está num lugar melhor. Eu digo que queria ele do meu lado. Na minha visão, a gente faz parte da natureza e é um pequeno pedaço do todo. O que aconteceu com a gente infelizmente acontece toda hora. Não somos os primeiros e nem seremos os últimos. Quando teve Santa Maria, pensei: “Isso vezes 240 é inacreditável.” A realidade é que não tem muito jeito. Faz parte da vida. Pode acontecer com qualquer um.

Depois de um negócio desses, você aprende a dar real valor às coisas. É como se desse uma freada no trem para rearrumar tudo. Não estou melhor, mas me imbuí da presença do Vitor para me tornar um cara melhor. Talvez seja um compromisso que assumi com ele na primeira semana; tem me ajudado.

Tenho um pouco de cerimônia ainda, na hora de me mostrar feliz. Se passo uma hora e meia no mar, me distraio, às vezes me divirto bem, mas ainda me sinto um pouco estranho. E sei que isso é natural.

O Vitor jogava polo aquático, surfava. Quando ele estava aprendendo, eu o empurrava nas ondas. Fizemos uma camisa com a foto do dia em que ele pegou a maior onda da vida dele. Falo com ele em voz alta. Quando entro na água, digo: E aí, filho? Vamos pegar onda juntos?

Dez dias antes, fomos eu, Ricardo, Vitor, Bruce e Camila (namorada do Bruce) para a Costa Rica. Parecia que o Vitor estava se despedindo. Passamos o carnaval juntos, surfamos, vimos o pôr do sol dentro d’água. Dez dias depois, isso. O mundo parece que para.

No enterro eu fiquei quietinha ao lado do Vitor. Era aquela cena de filme de terror.

Foi uma enxurrada de carinho da família e dos amigos. Mas, nos primeiros dias, eu mal saía do quarto. Eu queria ficar quieta. Durante os dois primeiros meses, eu só saía de casa para a terapia do luto. Eu só fui mesmo depois que o Bruce entrou no meu quarto e disse: “Tem vida lá fora, mãe.” A gente resolveu, então, jantar num restaurante japonês aqui perto, onde não havia ninguém conhecido. É muito difícil encarar a realidade quando uma coisa assim acontece. O luto é uma montanha-russa. Cada hora fica um embaixo.

Eu passava o dia vendo fotos do Vitor. Os amigos dele da Escola Parque nos deram uma caixa, com cartas escritas para ele e para nós. Li as cartas mais de dez vezes. A série inteira do Vitor escreveu, além dos amigos do Bruce. Ainda as leio; isso me faz bem.

Mudei a página do Vitor no Facebook para Vitor Bocão Eterno. Quem tem foto dele coloca, os amigos escrevem, virou um memorial. Entro no Facebook dele todo dia. O tempo todo chega uma mensagem de fora que me levanta.

O Vitor era a música da casa. Ele cantava no quarto, cantava enquanto fazia o dever de casa. Achamos um vídeo, de quando ele tinha seis anos, cantando uma música da Xuxa. A letra dizia que “alguém que mora lá no céu gosta de mim”. Aquilo me confortou.

Quando teve Santa Maria, voltou muita coisa. Coloquei uma oração na minha página do Facebook para as 240 mães que estavam sofrendo. Eu sabia o que elas estavam sentindo. Você reconhece aquela dor, sabe o processo, o que vai acontecer no dia seguinte. A gente, pelo menos, não tem que lidar com um sentimento de revolta com terceiros, com injustiça social...

Eu acho que a mãe que perde um filho não “supera”. Ela aprende a viver com essa dor, e a lembrar do tempo em que vivia ao lado dele com alegria. Frequento a missa todo domingo. Me dá conforto. Explicação não vou ter nunca, mas, quando aparece de surpresa uma amiga do Vitor aqui em casa, me trazendo um brigadeiro, acho que foi ele que mandou.

A gente continua se relacionando com o nosso filho. Ele está dentro da gente. Mesmo em silêncio, eu estou com ele. Fiz um altar no meu quarto com todas as coisas que ganhei: imagens, quadros, terços, medalhinhas. Fizemos um adesivo do Vitor para colocar nas pranchas do Ricardo e do Bruce. Tenho saudade para a frente, do que eu não vivi ao lado dele, e teria vivido.

Essa força para melhorar vem dele, do Vitor. Eu ainda estou reaprendendo a viver sem ele. Estou em construção, me espiritualizando mais e mais. Fui muito amada e dei muito amor ao Vitor. A certeza desse amor verdadeiro e eterno me conforta muito.”

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