sexta-feira, 25 de setembro de 2015

e isso não é VITIMISMO



Estou exausta de chorar. Sabe aquela história de mulher grávida que só vê bebês? Então, parece que nós, mães enlutadas (ao menos eu) só escuto falar em todos os lugares da felicidade de se ter um filho, como é importante... isso eu sabia muito bem o que “era.” Resolvi assistir a TV para me "distrair" e me deparei com Gisele Bundchen e Angélica falando do amor incondicional pelos filhos. Logo em seguida, a Xuxa entrevistando uma atriz e elas comentando das filhas (claro, o maior bem que temos no mundo), tocou fundo...sim, é um amor incondicional, tanto que estou aqui, penando e arrastando correntes. Estou morta em vida. Estou, e tenho certeza que minha filha é um Anjo muito mais vivo que eu. Tornei-me uma sombra do que fui. Jamais serei a mesma, mas não estou conseguindo passar do estágio de ser uma outra diferente COM estabilidade.

Procuro ajuda nos livros, internet, e descubro que sou perfeitamente normal e não tenho que cobrar nada de mim, que sofri o maior golpe que um ser humano sofre e isso não é VITIMISMO (quem ousar nos julgar, viva na nossa pele e verá o que é). Vitimismo é coisa bem diferente, hoje vejo, e como. Sei que aos olhos de muita gente eu estou errada e etc., mas para mim quem fica se lamentando por besteira não passa de gente mimada, que quer que a vida mime, e a vida não mima. Eu “pensava” que ficava depressiva às vezes. Depressiva? Não senhora, dona Patricia. Você ficava “emburrecida.” Claro, todos têm problemas e respeito aqueles que estão limitados pelas alterações químicas do cérebro. Porém, hoje de onde estou vejo que me preocupei e perdi tempo pensando em tanta besteira, que não me abalaria agora em nada. E isso não é uma vantagem, porque é como você ter perdido todos os movimentos do corpo e rosto e tentar se comunicar usando os olhos. E eu ainda preferia isso mil vezes se com meus olhos eu pudesse ver minha filha viva a meu redor.
A dor que vocês não veem, essa dor que não se tem como explicar de tão forte , é estranha, porque ela fica lá, pulsando o tempo todo em você, e de repente você pode explodir no choro forte, ou nas lágrimas que escorrem, escorrem dos seus olhos sem parar. Basta que eu veja, por exemplo, uma menina loirinha parecida com a Carol aos cinco anos, o cabelo longo e os cachos grandes, vestido rosa e pronto! Lá vem as minhas lágrimas. Ou uma adolescente, como já citei aqui, que pareça ou ao menos lembre o tipo físico dela, e fico imaginando que seja ela própria, meio que olho através de um vidro fosco, para não ver direito o rosto, e pensar que é minha filha que está ali.
Parece que somos todas iguais...uma amiga que conheci na internet , seu filho partiu aos 17 anos, passa pelo mesmo: ela viu de longe um menino muito parecido com ele, ela ia buscar o caçula de 13, 14 no shopping, de longe, observava o rapazinho, o jeito de andar, de vestir, e até o tipo de rosto, cor de cabelo, a maneira de rir e falar com os amigos (como aquela mocinha que eu contei para vocês do ônibus). Estacionou o carro em frente à porta para esperar e enquanto isso ficou observando-o entrar com o grupo, imaginando que era seu amado eterno que estava ali. Quando a porta um pouco transparente fechou, entrou mesmo na idéia que era o filho, dizia o nome dele e chorava. Perguntou à mim se estava maluca, ao que respondi como podia estar, se o mesmo aconteceu comigo, se eu olhava a menina quando ela estava distraída ,conversando, e imaginava que era minha Carol, principalmente de perfil, porque até o jeito de parar, lembrava? E ao descer do ponto, estava chuvoso lá fora e os vidros embaçados, imaginei que era a Carol mesmo! Se ela percebesse, eu não sei o que faria, mas eu acho que ia dizer-lhe o que estava sentindo e pedir um abraço! E pensar que estava abraçando minha filha novamente! Tem uma amiga que disse que fez isso, o moço entendeu e ficou muito comovido. Uma outra sentiu o perfume que o filho usava no corredor do supermercado, foi andando atrás para ver quem usava, como se estivesse buscando o filho.

Penso que essas fases distintas do luto (negação, raiva, resignação...) classificadas pela psicologia, não tem ordem e além de tudo há uma que não existe: a resignação. Passe o tempo que for, mas uma mãe nunca concretizará a dimensão desse acontecido terrível na sua mente. Eu não consigo abranger o que é tudo isso. Ou enlouqueceria. Juro que enlouqueceria de vez. Para mim, minha filha
está em algum lugar que não sei no momento, o que me faz sofrer horrivelmente como mãe, porque toda mãe quer saber onde seu filho está, mas que ainda vou encontrá-la . Não posso ligar para ela, falar pela internet nem nada, estamos incomunicáveis no momento por algum motivo, mas incomunicáveis apenas fisicamente, e só o AMOR está nos unindo, até que possamos nos falar...
Para que sentenciar uma mãe: "Admita 'tal coisa', 'acorde para a vida'", em primeiro lugar, que vida você está falando? Se não criamos nosso mundo, não sobrevivemos mesmo, pois nossa imunidade está muito mais baixa devido ao stress, eu mesma tenho febres emocionais, pura baixade de imunidade, é a infecção emocional que existe dentro de mim. Sem contar que essas baixas, podem nos causar uma doença real sim, e nós, com poucas exceções, já não nos importamos tanto quanto antes. Eu me preocupava quando tinha minha filha, e agora? Eu quero mais é ficar perto dela, por isso se acontecer algo de repente comigo, saibam todos, saibam o mundo, estarei realizada.
A "vida" aqui para mim não existe mais como era, nem nunca existirá. Como lhes disse, o que me segura é a minha mãe que já suporta a dor terrível da falta da neta. E o meu medo de não reencontrá-la. Creio que a gente perde todos os medos quando se vai o temor da partida, o que é inevitável a qualquer um: partir; uns mais cedo, outros mais tarde. Por isso é melhor não desdenhar da dor alheia. É isso mesmo. Porque quando se é “curiosinho “com os outros, julga a quantidade do sofrimento alheio, trata de mudar isso em você e pensa no que seria essa dor dentro do seu mundo. Acreditem as boas almas: há quem faça fofocas em velórios, e há quem ria disso. Há quem ache isso engraçado também, quando se conta. E se fosse o velório de um filho seu? E se não tem filho, da sua mãe? Você lá chorando seu filho em desespero profundo e umas pessoas falando superficialidades? Se você é tão indiferente assim, se esperte viu? Ou faça o mínimo e não vá a esses lugares, porque é um lugar de dor e respeito.
Eu li em uma reportagem triste, mas ao mesmo tempo aprendizagem para muitos, um acontecimento real: um desses “abutres” curiosos viu muita gente, carro de ambulância, dois carros praticamente destruídos. O tal fulano parou, louco para matar sua vontade de beber do sangue alheio. Entrou pela multidão e começou a perguntar quem era, o que aconteceu, e soube que as vítimas do acidente perderam as vidas. Mas ele queria ver, oras! Não estava satisfeito! Quando finalmente ,após se esforçar e abrir espaço no meio do povo, teve como se fosse um choque. Uma das vítimas, que estava deitado lá, uma poça de sangue em volta, os paramédicos já tinham desistido de trazê-lo de volta, e guardavam os aparelhos. Aproximou-se: era seu irmão mais jovem!
Nesse momento, a dor se apossou dele de tal forma que começou a gritar, pedir aos médicos que não desistissem, que o povo parasse de ficar olhando para seu irmão feito "urubus..." É isso que a constante falta de solidariedade pode trazer. Ninguém sabe o dia de amanhã, todos estão no mundo para TUDO e ninguém é melhor ou mais protegido. Se você não é assim, que bom, mas se é, pense melhor. Eu posso dizer que nunca fui, e levei essa porrada. Choro com aquela música do Chico Buarque, "pedaço de mim", muito antes de imaginar ser mãe, porque pensava nas mães sem seus filhos...eternamente.

Cada vez que via uma mãe chorar por um filho, me doía fundo. Quando me tornei mãe, tudo ficou mais intenso. Sempre achei isso tão grande, que ao me deparar com situações assim, não queria falar besteiras, abraçava e dizia: "Tudo que eu falar agora será pequeno diante do imenso sofrimento que você sente." E ia mostrando meu carinho, mandando um bilhetinho, dizendo que lembrei. Mas eu já ouvi coisas como: "Existe coisa pior." O que é pior? E isso veio de uma mãe! Mas claro que ela não pensou em si mesma: o velho egoísmo da vida. Só que a vida te engole. Então a gente, além da dor, tem que suportar muita curiosidade, muito cerco, muitas palavras ruins. Porque falta a solidariedade, como já escrevi aqui.

Estou ficando cansada, e o pior, começando a ficar ainda mais incomodada com esse assunto, até porque com certeza não podemos mudar os outros, mas EU POSSO dar minha opinião, e trabalhar dentro de mim minhas atitudes e sentimentos com relação a tais fatos.
Que ninguém passe por essa dor horrível, prefira qualquer uma, qualquer coisa com você, menos isso.

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