Um índio, vestido com as
minhas roupas, fazia os outros rirem. O meu hábito se encontrava em
péssimas condições. Ele não havia ainda secado e o índio rolava no chão.
Podem imaginar o seu estado lastimável! Senti vontade de chorar. O
velho índio, aproximando-se dele, ia aplicar-lhe uma bofetada, tão
furioso se encontrava. Corri, passando-lhe à frente. Quando os outros
viram de quem era o hábito, partiram para cima do brincalhão, pedindo
que eu o deixasse. Não os escutei, abraçando-me com o índio , levando-o
para dentro da cabana. Confesso que desejava dar gostosas gargalhadas
por vê-lo vestido de religiosa, mas me contive, pois o dono da casa não
havia aprovado aquela atitude. Pedi para que tirasse o meu hábito e me
devolvesse, o que ele fez, saindo correndo dali. Ia me trocar, mas minha
amiga tentou me impedir, pois o hábito se encontrava muito sujo e
molhado, mas assim mesmo tive de vesti-lo. Eu só tinha dois e a minha
pobreza não permitia pedir um outro à Congregação. Eles me olharam
assustados quando me viram vestida. O meu aspecto era péssimo.
Despedi-me e quando me pus à porta, uma fila de índias me esperava,
desejando me presentear com as suas roupas, já que um deles havia
estragado as minhas. Senti vontade de chorar, mas tive força para lhes
dizer:
— Obrigada, irmãs, não
posso aceitar. Lutei para conquistar cada pedaço desta roupa que agora
me pertence. Elas devem ser conquistas nossas, por isso respeito a minha
e a de vocês.
O engraçadinho,
cabisbaixo, nada tinha para me oferecer, ele já me havia dado a lição
que jamais devemos brincar com as coisas alheias. Voltei para casa e nem
quero aqui contar as penitências que tive de fazer por não me ter
comportado como uma religiosa. O estado da minha roupa falava muito mais
do que qualquer palavra de justificação.
Passaram-se os anos. Um
dia, alguém me convidou para cuidar da sua filhinha que nascera e que
recebera o meu nome. Abracei-o. Emocionado, disse-me:
— Irmã, a tua roupa me mudou por dentro. Que Deus te abençoe.
— Sabe, irmão, que a tua
brincadeira me mudou também? Hoje, quando te recordo fazendo os teus
irmãos rirem, sinto-me feliz por um dia ter-te emprestado as minhas
vestes.
— É mesmo, irmã? Não ficaste com raiva?
— Não, não fiquei. E hoje, feliz, vejo-te já casado, pai de família e mais contente ainda por ter sido lembrada por ti.
— Jamais, irmã, esquecemos
quando alguém, que tem tudo para nos condenar, nos perdoa. Você me
apresentou um Deus calmo, amigo e criança. Como eu gosto de amá-Lo!

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