
Luto: Viver Apesar de Tudo
Viver é também saborear o gosto acre da morte, do luto. Não apenas da
morte propriamente dita, mas das mortes transfiguradas nas inúmeras
perdas que sofremos durante toda nossa existência. O menino que fui,
morreu para o adolescente que chegou, que morreu para o jovem, para o
adulto. Enfim, o dia de ontem morreu para o dia de hoje, o segundo
anterior morreu para o segundo quem vem.
O passado morre para o presente, e se o luto não for elaborado,
viveremos eternamente presos ao instante anterior, onde a vida já deixou
de existir, já deixou de ser uma companhia. Viver é uma cidade sem
muralhas, dizia Epicuro. Nesta cidade, estamos sujeitos a tudo: a dor e o
prazer, a vida e a morte.
A vida e a morte, são como dois
bailarinos que sincronicamente fazem juntos todos os seus movimentos;
passos, gestos e sutilezas. Dançam juntos a mesma música, a mesma
coreografia. A vida enquanto presente, leva uma vantagem de milésimos de
segundos da morte, enquanto passado. Porém, a linha é tão tênue e
sutil, que não percebemos a diferença. Por vezes, esse luto mais
cotidiano, ordinário, passa desapercebido, não damos atenção porque
aparentemente são segundos banais. Entretanto, quando nos damos conta,
estamos com 70, 80 anos de idade e em um leito de morte. Só então é que
teremos a sensação de não termos vivido, da vida ter se esvaído como
água por nossos dedos. Ficamos tão agarrados ao passado, tentando pegar o
abstrato, ver o invisível, que não nos damos conta, de que o presente
fluía com todas as suas possibilidades. Mas, infelizmente “não estávamos
lá” para usufruir. Só agora que estamos na eminência da “última morte”,
é que percebemos que sem a morte não há vida, e que aceita-la,
significa a possibilidade de uma nova vida que se renova a cada
instante.
A todo o momento há falta. Essa falta, de qualquer forma
pode trazer dor, e quando não aceitamos, pode nos trazer sofrimento. E
pelo fato de não ser aceitar, há luto. Com isso, temos a cômica, ou
trágica imagem do cachorro correndo atrás do próprio rabo. O real nos
nega o objeto de desejo, nós negamos que nosso desejo foi negado pelo
real, o que fatalmente resulta em dor. Nos revoltamos contra a vida, e a
achamos injusta, sofremos ainda mais.
A impressão é que a realidade
é o grande carrasco do desejo. E na verdade o é. Todavia, a realidade
também é bondosa como uma mãe que às vezes é dura sim, mas que nos
ensina a viver, a amar, a usufruir o que a vida tem a nos oferecer,
apesar da morte, apesar da perda. A realidade às vezes concede nossos
desejos e se não estes, outros, e com o tempo, aprendemos que também
podemos ser felizes com estes “outros”. A felicidade não depende das
perdas, mas sim do que conseguimos ganhar, e é isso o que importa.
Nada mais certo e normal que a morte, tudo o que tem um início,
fatalmente terá um fim, e todos sabemos disso, porém preferimos nos
enganar pensando que tudo é eterno. Meu namoro, meu casamento, meu
cachorro, meu emprego, meus pais, meus avós, eu mesmo; todos eternos e
perde-los não estava no escript. O trabalho de luto é aprender a dizer
sim, tanto para a vida, quanto para a morte; para os ganhos e para as
perdas.
Vida Breve
Uma vida não é senão um breve instante na
eternidade, independente do quanto dura esse instante, é imprescindível
que seja bem vivido, do contrário, a vida será um hiato, um vazio sem
sentido. Dentro de cada vida, muitas outras vidas perfilam, vidas que a
todo instante deixam de ser, deixam de existir, porque outras estão à
espera. E cada finalização dessas breves existências, nos trazem o luto e
sua conseqüente e necessária elaboração. Este que nos possibilita o
desapego, a libertação de uma das mortes de nossa vida, para que novas
possam nascer.
Aquele morreu quando estava para aproveitar a vida,
desgostoso por ter sido tão breve e pouco vivida, ouve-se o comentário.
Sendo assim, o que se lê é: aquele nunca aproveitou a vida! Sua
existência correu rápida e descolada de si mesmo, e dela, não se
aproveitou ou pouco se aproveitou. E porque até então não se pôde
aproveitar? Por certo temos aqui a ausência do bem viver, portanto a
dificuldade em morrer. Dificuldade, porque achamos que a vida não foi
suficiente, queríamos mais, pois não nos sentimos preenchidos.
Este
morreu feliz, conseguiu realizar seus sonhos. Portanto, este morreu
completo, e talvez com uma morte bem aceita. Quando vivemos mal, a morte
nos tira a vida, e a perda é vista como um roubo. Quando vivemos bem, a
morte é apenas o último estágio da vida, a perda pode até deixar um
vazio, mas não a revolta, não o sofrimento sem tréguas. Este por certo,
perceberá que a vida continua, mesmo após uma perda ou morte. E na
eminência do próprio fim, se liberta por si mesmo da vida que tanto lhe
proporcionou, e sendo ele sabedor deste fim, parte tranqüilo e sereno.
“A morte só nos tomará o que quisermos possuir”, dizia Sponville, e
Freud complementa: “não sabemos renunciar a nada. Apenas sabemos trocar
uma coisa por outra”. E isso, a realidade pode nos dar. Posso amar
outros, ser outro, ter outros. Constantemente travamos uma luta entre
nossos desejos, amores ou posses, e a realidade – os impedimentos para
alcançarmos tudo o que queremos – Muitas vezes, o real é mais forte, e
perdemos essa briga.
O luto pode acontecer tanto do que tínhamos e
perdemos, como: emprego, empresa, casamento e morte de um ente querido.
Quanto do que esperávamos ter, mas que até o momento não conseguimos,
como uma promoção, o carro que não conseguiu comprar, uma paixão que
nunca foi correspondida ou ganhar o prêmio na loteria. E tão maior for
nosso apego ao que temos ou ao que poderíamos ter, tão maior será o
sofrimento caso perdemos. Elaborar o luto é se libertar do desejo,
quando ele não pode ser realizado. Isso não serve para dizer que não
devemos correr atrás de nossos sonhos, ou viver intensamente nossas
paixões e que não devemos empreender nosso máximo para conseguir, mas
sim, para dizer que a vida continua apesar de não ter conseguido.
Acredite, o mundo é generoso.
A dor do luto
O luto como já dito,
carrega em si a dor, viver é estar em constante luto e elaboração do
mesmo. Essa elaboração é a ponte que nos leva da dor ao prazer. Luto é
aprendizagem, é experiência. O luto nos torna humanos, que sabemos,
somos mortais. Portanto, a morte é nossa fiel amiga e não podemos fugir
dessa fidelidade. Ela pode ser ludibriada, se postergada, atrasada, mas
nunca deixará de vir ao nosso encontro, como disse ela é fiel e cumpre o
que promete, cedo ou tarde. Ela nunca deixa de estar presente, para nos
mostrar como num espelho, nosso corpo a todo tempo desnudado pelo real.
O real é a própria morte, são as perdas, os fracassos, as decepções, as
frustrações, as amputações do desejo. Entretanto, o real nos pega mesmo
a contra gosto, e por vezes nos mostra exatamente o contrário, que tudo
tem um fim, que tudo isso não passa de um conto de fadas. O castelo de
cartas cai por terra. Dor, sofrimento, luto.
A elaboração do luto é a
aceitação da realidade tal como ela é, nua e crua. É aprender a viver
com a ausência, com uma perda, buscando algo novo que nos vá preencher.
Nunca é claro, o mesmo preenchimento, apenas um novo. O luto é da morte,
não da vida. O que morre são partes de nós, o todo continua vivo. Assim
como, a cada dia milhares de células morrem em nosso corpo, porém,
milhares nascem para manter o todo nas melhores condições possíveis, e
pelo maior tempo possível.
Por Odair José Comin