- "Ninguém Morre Antes da Hora?", que inclusive foi apresentado na Casa Espírita que freqüento, gostaria de questionar sobre o episódio que serve de exemplo no final, do motorista embriagado que atropela 3 pessoas. No meu entendimento, segundo a resposta da pergunta do Livro dos Espíritos nº 853 em seu item a), os espíritos deixam claro que ninguém morre antes da hora. Sei que o assunto é polêmico e deixa muitas dúvidas, mas gostaria de saber se o meu entendimento está correto, segundo o seu ponto de vista..."
- pergunta 2: "...gostaria de sanar uma dúvida referente aos assuntos "Livre Arbítrio" e "Morte". Na letra a), da questão 853 do Livro dos Espiritos, fica claro que não é possível que alguém "morra antes da hora". Porém, minha dúvida reside na questão 859 até a 861. Onde também fica claro que todos nós temos o livre arbítrio. Eu tenho um entendimento, que também é fruto de uma leitura detalhada de seus dois artigos sobre o assunto ("Ninguém morre antes da hora?" e "Ninguém morre antes da hora? – parte II"): temos previsto uma momento para que a morte ocorra, mas, em função de nossa imprevidência (livre arbítrio) ou da ação de terceiros, nossa morte poderá acontecer antes. Estou correto?..."
Resposta apresentada:
Não se deve interpretar literalmente e
fora de contexto o colocado na questão nº 853 do Livro dos Espíritos (L.E.). Deve ser
analisado e considerado que Kardec afirma existir "a
hora da morte" e não "uma
hora da morte" (a diferença semântica é sutil, mas o
conceito muda "da água para o vinho"), e que fica
muito claro nas Obras Básicas como um todo, que não existe uma data e hora da morte
pré-determinada. E isso é peremptório na Doutrina
Espírita. Constata-se isso estudando Kardec com cuidado, e não apenas "lendo
Kardec".
Em não existindo uma hora da morte
pré-determinada, como alguém poderia morrer antes da hora??? É nesse sentido e nessa
contextualização que se insere a afirmação da questão nº 853 do L.E. de que ninguém
morre "antes da hora", o que é evidente, já que não existe uma hora marcada
para morrer.
Se existisse data e hora (e forma)
marcada para a morte, não existiria o livre-arbítrio, pois tudo seria determinístico e
nós, encarnados, meros fantoches da espiritualidade ou da "vontade divina". Ao
reencarnarmos, trazemos conosco um "patrimônio" genético-perispiritual que nos
estabelece um potencial de vida teórico de X anos. Assim sendo, podemos morrer
"antes da hora", no sentido estrito de não termos atingido a nossa idade
potencial. E isso pode se dar em virtude de nossos abusos e imperfeições ou ainda, da
ação de terceiros.
Posso afirmar que o que coloco nos dois
artigos sobre esse assunto no meu site (www.carlosparchen.net), é o que a Doutrina
Espírita traz, em termos filosóficos e científicos, a respeito da morte e do livre
arbítrio, pois este (o livre arbítrio) é inviolável, e não existe programação
determinística de vida, apenas tendências reencarnatórias, que são completamente
mutáveis pelo uso de nosso livre arbítrio ou pelo uso do livre-arbítrio por terceiros
(um assassino, por exemplo).
Os desencarnes coletivos (por exemplo, o
causado pelo avião que caiu e matou várias dezenas de pessoas) não são programados, e as pessoas atingidas
não estavam destinadas (ou condenadas) a morrer daquela maneira. Foi o uso do
livre-arbítrio de terceiros, que não cumpriram adequadamente com suas funções e
obrigações, que causou a morte daquelas pessoas, que assim sendo, "morreram antes
da hora", se considerarmos o potencial genético-perispiritual de tempo de vida, a
que já nos referimos, que não foi atingido pelos que desencarnaram.
Se assim não for, não existe o livre
arbítrio, e os assassinos não teriam culpa, pois apenas executariam as "ações
divinas" (os assassinados teriam nascidos para serem mortos e os assassinos nascidos
para matarem). E os espíritos superiores também seriam assassinos, pois teriam que levar
pessoas para morrerem, assim como se leva o gado para o matadouro. E seria assim mesmo. Já imaginou reunir 187
pessoas para serem mortas num acidente de avião? Isso não é ser "gado"? Isso
é concebível? E a "logística" para isso? Só se todos nós formos marionetes.
Nesse exemplo, como existiriam no avião,
em tese, pessoas que "não precisariam desencarnar", não poderia a
espiritualidade impedir um acidente desses? Não, isso não seria possível, pois se o
fizessem estariam violando o livre-arbítrio e este, verdadeiramente, é inviolável, pois
faz parte da Justiça e da Perfeição Divina, que nos dá o direito de sermos, como tão
bem lembrou Jesus, "deuses" (qual o poder de um "deus"???).
Muitos não querem aceitar isso, pois é muito cômodo responsabilizar o destino e a programação
reencarnatória por tudo o que acontece de ruim. Muitos
espíritas querem que a espiritualidade, a "vontade divina" e o destino sejam
responsáveis por fatos, atos e coisas que são de inteira, única e exclusiva
responsabilidade individual e/ou coletiva, incluso aí a
forma e a hora da morte, nossa ou de terceiros, em via de
mão dupla.
Não se deve ficar surpreso por muitos
espíritas não aceitarem, nessa questão da "hora da morte", que ela é
decorrente da responsabilidade individual e/ou coletiva; infelizmente, a maioria não
estuda Kardec de forma profunda e sistemática, apenas lêem e usam frases soltas,
retiradas das obras básicas, como se verdade fossem, sem entender a contextualização
(inclusive da época, do povo e da linguagem), sem interpretar filosoficamente obras que
são filosóficas, e sem avaliar cientificamente obras de base científica, que são as
Obras Básicas da Codificação.
Sem
pretender ser o "dono da verdade", mas apenas manifestando um ponto de vista
pessoal, e respeitando as opiniões em contrário, acredito sim, baseado no estudo e numa
interpretação rigorosamente "Kardecista" das Obras Básicas do Espiritismo,
que não existe uma hora determinada
para se morrer. Se assim não
fosse, não existiria o livre-arbítrio, e o Espiritismo teria perdido uma de suas pedras
basilares.
Autor: Carlos Augusto Parchen

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