Há
uma beleza espiritual e há outra beleza que fala aos sentidos. Certas
pessoas
pretendem que o belo pertence exclusivamente ao campo dos
sentidos, separando dele por completo o espiritual, de modo que o nosso
mundo apresente uma cisão entre os dois.
Nisso
também se baseia o ensinamento verídico: «Apenas por dois modos a
felicidade é passível de ser conhecido em todo o Universo: a que nos vem
das alegrias do corpo e a que nos vem da paz redentora do espírito».
Desta doutrina, no entanto, segue-se que o espiritual não se acha, para o
belo, na mesma relação em que o belo se encontra para com o feio e que,
só em certas condições, se confunde com este.
O
espiritual não é sinônimo de beleza pelo conhecimento e pelo amor do
belo, amor este que se exprime em beleza espiritual. Tal amor, em
absoluto, não é absurdo ou sem esperança, pois, pela lei da atração dos
opostos, o belo por sua vez anseia pelo espiritual, admirando-o e
recebendo-lhe com agrado a corte.
Este
mundo não está constituído de tal modo que o espírito esteja fadado a
amar apenas o espiritual, nem a beleza unicamente votada a procurar o
belo. Na verdade, o próprio contraste entre os dois indica, com clareza
ao mesmo tempo espiritual e bela, que a meta do mundo é a união entre o
espírito e a beleza, isto é, uma felicidade não mais dividida porém
total e consumada.Thomas Mann

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