HPV - o que um olhar espiritualizado pode nos ensinar? Dra Giselle Fachetti
Uma
pessoa querida perguntou-me se havia escrito algum artigo sobre HPV,
sim, vários, mas todos sob a ótica estritamente cientifica.
Tenho
estudado o assunto desde minha graduação quando fiz um curso de
especialização em Colposcopia na UFMG em 1985. Faz tempo...
Coincidentemente no ano em que Misels conseguiu estabelecer a correlação
entre HPV e câncer de colo uterino.
Naquela
época já sabíamos que o câncer de colo uterino era uma doença de
transmissão sexual, mas o agente microbiológico ainda não havia sido
identificado. Seguiu-se uma verdadeira caça ao HPV.
A
ciência caminha progressivamente e muitas verdades se mostram falsas
com o desenvolver do conhecimento. Apesar de sabermos disso, muito
exagero foi cometido então, tanto em termos de diagnósticos quanto em
termos de tratamentos.
Hoje
os conhecimentos estão mais sedimentados e podemos traçar linhas gerais
que tranqüilizarão as mulheres que enfrentam um diagnóstico como esse.
Como as fontes virtuais de conhecimento costumam ser apelativas, pois
assim atraem mais olhares, procuraremos ser realistas.
Analisaremos,
também, o aprendizado sobre nossa realidade íntima que uma experiência
relacionada a uma doença sexualmente transmissível nos proporciona.
O
primeiro dado que devemos tem em mente é que a infecção por HPV é
altamente prevalente, as pesquisas com técnicas de pesquisa de DNA viral
demonstram que 80% da população que teve pelo menos uma relação sexual
em sua vida, já teve contato com o HPV.
Desse
grande número de indivíduos uma pequena porcentagem vai desenvolver
lesão pré-cancerígena. Frisando, lesão pré-cancerígena e não câncer.
Câncer é ainda mais raro. No primeiro caso cerca de 100 em cada 100.000
mulheres, no segundo, cerca de 18 em cada 100.000 mulheres (Goiânia,
2007 – estatísticas variam conforme o local).
As
lesões pré-cancerígenas são detectáveis pelo teste de Papanicolaou e,
tratáveis com diversas técnicas modernas que praticamente não deixam
seqüela. Tais terapias não costumam interferir na fertilidade futura.
Apenas
casos em que detectamos o câncer propriamente dito, lesão que invade o
tecido subjacente ao epitélio do colo do útero, é que precisam de
tratamentos mutilantes como a retirada do útero. Ainda assim, temos
índices de cura bastante altos em estádios iniciais da doença.
As
lesões pré-cancerígenas levam entre 5 e 15 anos para se transformarem
em câncer invasor. Por isso teremos entre 5 e 15 oportunidades para
detectarmos lesões ainda benignas ao analisamos os exames anuais de
Papanicolaou. É um excelente grau de segurança.
O grande problema que enfrentamos é tornarmos o exame acessível a todas e, a cada uma, das mulheres do nosso planeta.
Tendo
o diagnóstico de uma lesão pré-cancerígena do colo uterino sabemos que
essa pessoa teve contato com o HPV, vírus de transmissão sexual, de alta
prevalência. Fato esse que ocorreu também com 80% das demais mulheres.
Sabemos,
ainda, que essa paciente sofreu, ainda com outros fatores os quais se
somaram ao HPV para possibilitar a indução de uma mutação gênica em seu
colo do útero. Ela certamente teve uma falha imunológica provavelmente
associada ao fato de ou portar um vírus mais agressivo, ou fumar, ou
estar mal alimentada. O stress é outro fator que igualmente sabota nossa
imunidade.
Existe
uma grande preocupação em relação aos parceiros sexuais, já que a
paciente se vê diante de uma doença sexualmente transmissível e, imagina
ser possível detectar quando foi infectada. Não é.
O
primeiro ponto a ser considerado é que sim, é uma doença de transmissão
sexual, mas que pode ficar latente, sem expressão clínica por vários
anos, conforme a imunidade da paciente. Assim não significa, sempre,
infidelidade.
Não julgueis, a fim de não serdes julgados;
- porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros;
empregar-se-á convosco a mesma medida
de que voz tenhais servido para com os outros.
Mateus, 7; 1 e 2.
Aí
está um aprendizado ético e moral que as mulheres se deparam logo de
cara. Não devem julgar mal e precipitadamente seu parceiro.
Inicialmente, pergunto a elas se sabiam que seu parceiro havia tido
outras parceiras sexuais em seu passado.
Elas invariavelmente sabiam, e algumas, até se orgulhavam da
experiência prévia do amado. Não cogitavam que quanto mais experiente o
parceiro maior a população de vírus que ele efetivamente entrou em
contato durante seus relacionamentos anteriores.
No
homem o vírus contamina pele, tecido maduro, pouco suscetível a
transformação neoplásica. Eles, portanto, tem risco bem menor de
desenvolverem lesões pré-cancerígenas do que as suas mulheres.
Livro dos Espíritos, questão 821
As funções às quais a mulher é destinada pela natureza
têm importância tão grande quanto as do homem?
– Sim, e até maiores;
é ela quem dá ao homem as primeiras noções da vida.
Disso
decorre outra oportunidade de aprendizado. Quando tomam conhecimento
desse fato logo dizem que é mais uma das inúmeras vantagens masculinas.
Faço,
então, questão de ressaltar que apesar de nós mulheres termos mais
freqüentemente pequenos problemas de saúde, nós temos uma expectativa de
vida bem maior que a deles... Será que realmente estamos em
desvantagem?
Em
seguida vem a dúvida relativa à re-infecção. É claro que se o
relacionamento não for monogâmico o casal corre sérios riscos de saúde. E
o HIV é muito mais grave que o HPV. Qualquer suspeita, ou possibilidade
de que existam mais de duas pessoas envolvidas no relacionamento,
implica em obrigação do uso da camisinha.
Caso
seja um relacionamento monogâmico, em algum momento o casal optará por
aumentar a família e, aí, não poderá manter o uso da camisinha.
Não
existe necessidade de maiores preocupações relativas ao HPV quando o
casal é monogâmico. Uma vez que nos contaminemos com um tipo de HPV
habitualmente nos tornamos imune a ele. E não re-infectaremos nosso
parceiro, assim como nem ele nos re-infectará. Não ser trata de infecção
em ping-pong!
A
imunidade obtida naturalmente é menos eficiente que a induzida pela
vacina, porém, o suficiente para que o casal viva sua intimidade com
naturalidade.
Finalmente,
nos deparamos com um ponto crucial que faço questão de ressaltar junto
ás minhas pacientes: o preconceito. Como sofremos por estarmos portando
um vírus de transmissão sexual!
Caso
tivéssemos uma doença bem mais grave, como, por exemplo, um abscesso na
faringe, na amígdala, não nos sentiríamos tão culpados e tão impuros.
Julgamos
que doenças sexualmente transmissíveis só acometem pessoas promiscuas e
quando acontece conosco nos sentimos promíscuos, daí tanto sofrimento.
O
erro está no preconceito e nas culpas. Essas foram sistematicamente
introjetadas na mente de várias gerações pelo enfoque, antigo e
equivocado, que marcava a sexualidade humana como originariamente
pecaminosa.
Todas
as atividades humanas envolvem riscos. Ao atravessarmos uma rua
corremos o risco de morremos atropeladas. Ao amarmos nosso marido
podemos construir uma família, e poderemos, simultaneamente,
desenvolvermos alguns tipos de doenças.
Se,
inversamente, optamos por não exercer a maternidade, teremos diante de
nós outros riscos, como, por exemplo, a maior chance de desenvolvermos
miomas uterinos...
Quaisquer
opções que façamos em nossa existência terrena envolverão riscos.
Temos, sim, que conhecê-los e gerenciá-los com inteligência e
tranqüilidade.
A mulher que inicia sua vida sexual deve saber que se desenvolverá profundamente como mulher, mãe, esposa, como ser humano.
Deverá
saber que ao mesmo tempo assume responsabilidades: Deve cuidar de sua
saúde. Deve passar a realizar exame de Papanicolaou anualmente. Deve
planejar sua família conforme sua realidade e, com orientação
profissional. Deve, ainda, escolher seus parceiros com critério.
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração,
de toda a tua alma e de todo o teu espírito;
este o maior e o primeiro mandamento.
E aqui tendes o segundo, semelhante a esse:
Amarás o teu próximo, como a ti mesmo.
- Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos."
Mateus, 22; 34-40
Amar-se
antes de amar o próximo. Foi assim que Jesus nos ensinou, pois, não
saberemos amar ao próximo se primeiramente não soubermos amarmos a nós
mesmos.
Giselle Fachetti Machado

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