A dança da Ingratidão
George De Marco
Conta-nos a
História (assim, com H maiúsculo por ser fato real), que no século I
a.C., o imperador romano Julio César foi vitimado por uma conspiração
dos senadores que pretendiam tirar-lhe do cargo. Ao reconhecer entre
seus algozes seu próprio filho adotivo, Marcus Brutus, Julio César teria
proferido a famosa frase: “Até tu, Brutus, filho meu?”. A cena entrou
para a posteridade e fixou-se no imaginário popular primeiramente por
simbolizar a traição, quando costumamos dizer que fomos “apunhalados
pelas costas”; segundo, também, por traduzir a desilusão causada pela
ingratidão, conforme a dolorida expressão do imperador dirigida a seu
filho – e sempre a usamos, ainda que nosso traidor se chame João ou
Maria.
O autor francês, Charles Pinot Duclos (1704-1772), assim
escreveu sobre o tema: "A ingratidão consiste em esquecer, desconhecer
ou reconhecer mal os benefícios, e se origina da insensibilidade, do
orgulho ou do interesse”. Curioso notar as origens que Duclos apresenta
para a ingratidão, com destaque para o orgulho, velho conhecido nosso.
Velho “adversário da humanidade”, como salientou Lacordaire, no capítulo
VII de O Evangelho segundo o espiritismo, item 11. Em seguida, no item
12, é a vez de Adolfo, bispo de Argel, apresentar o orgulho como fonte
de todos os nossos males. E um destes males que disseminamos diariamente
é, sem dúvida, a ingratidão.
Somos ingratos quando esquecemos as
coisas boas que nos fazem. Somos ingratos quando discutimos com nossos
pais. Somos ingratos quando “passamos por cima” de nossos colegas de
trabalho, na ânsia de defendermos nossos pontos de vista – quando, em
verdade, defendemos apenas nosso orgulho. Somos ingratos quando viramos
às costas para os problemas do outro. Somos ingratos ao exigimos que
nosso próximo, seja ele quem for, seja perfeito, já que somos ingratos,
justamente, por sermos moralmente imperfeitos! É o que nos ensina O
livro dos espíritos, nas questões 937 e 938. Ali, aprendemos que o
egoísmo é o pai da ingratidão. Como podemos observar, então, damos
morada a uma família da pesada em nossos corações. Esta família costuma
fazer uma verdadeira festa com nossas emoções, levando-nos a cometer
erros contra nosso próximo que se convertem em malefícios contra nós
mesmos – e disso já não há mais dúvida. Nesta festa, o orgulho é o
anfitrião, o egoísmo espalha seu veneno e a ingratidão nos faz dançar a
valsa da desilusão. E por que nos desiludimos? Emmanuel é franco e
direto: Nos desiludimos porque esperamos muito de nosso próximo. Temos
o estranho hábito de esperar sempre algo em troca pelo bem que fizemos
ou, simplesmente, pela amizade que dedicamos. Mas, se esperamos algo em
troca, que bem que fizemos? Que amizade sincera dedicamos?
Há uma
grande dificuldade nossa em nada esperar do bem praticado, pois temos
uma necessidade enorme de sermos amados, estimados, queridos,
idolatrados – salve, salve! E aí, nosso egoísmo, nosso anfitrião, nos
coloca nessa rota dolorida, que nos levará ao encontro de corações
endurecidos como os nossos. O melhor, então, é perseverar na prática do
bem, evitando participar da festa que aquela família da pesada promove
diariamente, sendo os controladores de nossas emoções, e não o
contrário, conhecendo-nos a nós mesmos.
Sejamos felizes no que
fazemos, pois o que foi esquecido hoje será lembrado amanhã. E, se assim
não for, mais terá o ingrato a pagar do que aquele que sofreu a
ingratidão. Por isso, os ingratos são dignos de pena, e não de revolta,
pois terão sua solidão para vivenciar suas dores, em resposta às suas
ações infelizes, sempre movidas pelo egoísmo.
Seu amigo lhe
abandonou à própria sorte? Então ele nem era assim tão seu amigo!
Lamentar o quê? Seu colega de trabalho faz de tudo para lhe derrubar?
Deixe-o em sua gana, que ele se destruirá sozinho. Continue fazendo sua
parte e logo encontrará corações mais afeitos ao seu, pois espíritos
afins se reconhecem e se reencontram, em primícias da felicidade que
queremos compartilhar eternamente. E desta felicidade estão excluídos os
elementos daquela “família” – o egoísta, o ingrato, o orgulhoso.
Relembremos as palavras contidas na questão 938a: “Lastimai os que usam
para convosco de um procedimento que não tenhais merecido, pois bem
triste se lhes apresentará o reverso da medalha. Não vos aflijais,
porém, com isso: será o meio de vos colocardes acima deles”.
Mas não
tapemos o sol com a peneira! Não culpemos o próximo por nossas falhas e
busquemos sinceramente externar o amor – sentimento que nos eleva, nos
modifica e nos faz feliz. Pois na dança da ingratidão um dia somos Julio
César, mas, na maioria das vezes, somos Brutus mesmo...
Texto publicado na edição 432 do jornal Correio Fraterno

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