CARTA DE UMA MÃE
Querido filho,
Hoje, ao acordar,
encontrei sobre a mesa da cozinha um buquê de rosas, um cartão de
parabéns e um presente para mim, embrulhado em papel colorido.
Desembrulhei-o um tanto comovida, já antevendo o que seria: uma blusa de
lã para o inverno que se aproxima.
Estamos no segundo domingo de
maio, é o DIA DAS MÃES, por isso você me presenteou. Acaricio, junto do
rosto, a blusa oferecida: é de lã alaranjada, macia e cálida como o amor
que você me dá.
Vou até seu quarto, abro a porta e vejo que você
dorme. Ontem à noite, ouvi quando você chegou. Eu sabia que, mais uma
vez, você tinha saído com seu amigo, o Ricardo. Há quanto tempo vocês
saem juntos em viagens, passeios, teatros e boates? É já tempo
suficiente para que eu aceite sem fingimento essa profunda e sincera
amizade que os une. Porque, com o tempo Ricardo também se tornou um
filho para mim.
Debruço-me com cuidado sobre a cama e contemplo seu
rosto adormecido, afundado no travesseiro. Querido filho, estamos
envelhecendo juntos, aprendendo a nos compreender, desculpar e amar.
Para você em retribuição ao presente que me deu, quero oferecer esta
carta, que não me está sendo fácil escrever, e que me custou vários anos
de meditação.
Devo confessar com remorso que eu não estimava você,
que o repudiei inconscientemente a partir de sua adolescência, quando
percebi assustada que seus modos menos masculinos o diferenciavam de seu
irmão mais velho, causando estranheza e ressentimentos em seu pai. Pois
ele, como um bom preservador de nossa estirpe, queria filhos varões que
lhe dessem netos, e o desinteresse que você demonstrava pelas moças que
vinham procurar por você, preocupava e contrariava seu pai.
Agora
tudo mudou: naquele tempo éramos cinco, agora somos apenas dois nesta
casa. Sou viúva e tenho um filho solteirão. Seu irmão e irmã se casaram e
vivem em outra cidade, cuidando dos filhos e da família que criaram. É
verdade que ambos são gentilíssimos comigo, e espero todos para o almoço
de hoje, quando nossa casa vibrará de alegria com os gritos das
crianças. Meus netos!
Virão meu genro e minha nora, eles vão me
beijar e dizer frases de carinho. Meu filho e minha filha estarão
acompanhados, e exibirão orgulhosos o conjugue que escolheram. Apenas
você, por pudor, estará sozinho, certamente pensando em Ricardo,
imaginando como seria maravilhoso se pudesse convidá-lo também para
nossa reunião, sem receio de que a presença quase injustificável daquele
intruso pudesse despertar desconfiança em terceiros.
O principal
motivo desta carta é pedir-lhe que hoje também convide seu amigo para
almoçar ou brindar conosco. Se eu aceito e amo o marido de minha filha, e
a esposa de meu filho, por que não aceitar seu amigo e a ternura que os
une? E, de hoje em diante, se você preferir discretamente não alardear
essa amizade, você não precisará mais negá-la ou escondê-la.
Querido filho, eu me orgulho de você e, daquela maneira tão egoísta que
só as mães compreendem, eu agradeço a Deus por ele me haver dado um
filho como você, que me estima, ampara e respeita, e é o companheiro de
minha velhice.
Beijos,
Tua mãe, Ana.

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