s caçados..
Arranhões
O vagão parou perto do “alojamento”. Judeus, ciganos e outros desceram,
de forma ordenada, assistidos pelos soldados nazistas. Um a um eram
separados. Homens seguiam para um lado.
Mulheres e crianças para o outro. Não sabiam ainda que aquela “seleção”
separava os que iriam viver – por mais um tempo, enquanto produzissem –
daqueles que logo estariam mortos nas câmaras de gás. Todo o empenho
militar, toda a preparação de engenheiros e técnicos havia tornado
industrial, em linha de produção, aquilo do qual sempre fugimos: a
morte. Logo, os indesejados estariam mortos, de forma coletiva. O ácido
cianídrico desceria pelas escotilhas, se espalharia na câmara de gás.
Uns desconfiavam, outros não queriam acreditar. Mesmo que o cheiro de
carne queimada, que há muito havia invadido o ar respirável nos vagões
enquanto se aproximavam do campo de concentração, não poderia ser de
humanos, pensavam eles. Era.
Depois de mortos por atacado, os fornos
os receberiam, para serem queimados. O “negócio” dos algozes era
facilitar o fim dos corpos, daquilo que era o fim dos judeus, daquilo
que perturbava toda uma sociedade, daquilo que um psicopata fez a
maioria de uma nação acreditar. A solução final para um problema
racista. Uma parte da Europa fechou os olhos. Sabia o que estava
acontecendo, fingia não saber. Mais ou menos o que ocorre hoje, no caso
dos refugiados e a indiferença de mais da metade do mundo.
As
paredes internas das câmaras de gás, ficaram assim, como está na foto.
Os riscos das unhas, de quem desesperadamente tentava se apegar a vida.
Não deu. Só queriam um banho. A água não caia, em seu lugar, o pesticida
Zyklon B. Os nazistas matavam como se não houvesse a figura do
assassino. O processo era industrial. Oitocentos mortos a cada meia hora
e mais meia hora para “limpar” o espaço. “Próximos”, ordenava um
superior.
Um escoltava o Judeu, o outro fechava a porta, o outro
despejava o ácido cianídrico por uma abertura na parte superior. Ninguém
matou Judeu, ninguém matou Cigano, ninguém matou Homossexual, ninguém
matou Ser Humano denominado Deficiente. A indústria que produzia o
Zyklon B era uma indústria. O maquinista do trem era um maquinista. O
soldado nazista era um soldado. Todos eram engrenagens de uma indústria.
A indústria da morte. Matança em série. Holocausto.
Uma dessas
câmaras está lá, preservada, em Auschwitz, para lembrarmos. Lembrarmos
para não repetirmos. Lembrarmos que a maior riqueza de um povo é a sua
liberdade. Homens e mulheres sendo livres renovam a vida. O
totalitarismo, a ditadura, as coisas acima do humanismo, acima das
coisas da natureza, são passageiras e têm cheiro de massacre.
Mas e
aí? Paramos com as guerras? Não. Não nos livramos da imbecilidade, da
brutalidade, da covardia de caçarmos outro humano com as armas que outro
humano fabrica, para matar outro humano, que tem uma mãe, que tem um
irmão, que talvez tenha um filho. Uma guerra é dividida em dois lados:
em um lado temos o desesperançoso que vai na linha de frente, matando,
morrendo. No outro lado, está o covarde, que fica em seu gabinete
escolhendo os que poderão morrer pela SUA causa. Afinal, por quem lutam
os soldados? A quem pertence a guerra?
Lá de longe, a milhões de
anos luz de nossa “vidinha fechadinha” em nós mesmos, outros planetas,
outras energias sequer conseguem enxergar a luz emanada da mãe Terra.
Somos nada no infinito de um cosmos, porém somos tudo para quem nos ama.
Nesse momento, nosso mundo é aqui. Nosso melhor e nosso pior está aqui.
Parte de nós, um dia, estará em outro lugar (átomos, energias..), mas
hoje, nesse lugar, nós temos a nossa importância. Somos tão importantes,
que não podemos perder nossa existência com aquilo que nos dá a ilusão
de estarmos acima dos outros.
O fabricante do ácido cianídrico, o
soldado, o Hitler, o Judeu, eu e você, somos feitos da mesma matéria. O
que nos diferencia são nossos propósitos e as interpretações que fazemos
dos acontecimentos.
E continuamos assim, na linha de produção.
Obs.: Não encontrei o nome do/a autor/a da foto

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