Quando um filho morre antes dos pais
Senhor, há uma velha história que meu pai me contou.
Um velho perdeu o seu único filho, e seus amigos vieram procurá-lo e
disseram-lhe: Por que choras? Nada te pode devolver teu filho.
E o velho disse: É por isso que eu choro.
A perda de um filho ou de uma filha é considerada por muitos como a dor
mais profunda e devastadora que uma pessoa pode sofrer na vida.
Realmente, o luto pela morte de um filho costuma ser de uma intensidade
muito grande e geralmente possui um tempo diferenciado, tempo esse
alongado em função das características específicas desse tipo de perda.
É comum pensar e desejar que a morte siga uma seqüência cronológica:
primeiro morrem os pais, depois, os filhos. Por isso, quando essa
seqüência se quebra, independente da idade do filho morto, os pais
sofrem muito, pois para o ser humano, o filho é a continuação de sua
própria existência e quando um filho morre, sonhos e projetos dos pais
vão embora com ele. Múltiplas perdas estão envolvidas nesse processo e é
por isso também que essa perda é geralmente tida como mais complicada
do que as outras.
Em algumas situações, a partida de um filho
pode desestruturar toda a dinâmica familiar, ocasionando separação dos
pais e problemas de relacionamento com os demais filhos. Conforme nos
apontam alguns estudiosos do luto, normalmente, os pais não respeitam a
maneira de pesar um do outro e às vezes a distância do assunto “filho
que morreu” com a intenção de poupar o companheiro, é o que pode
ocasionar separações. Em relação aos filhos que ficaram, acontece em
alguns casos, comparações freqüentes e idealização com o filho que
partiu, o que pode trazer mais complicações para a família já que o
irmão também está sofrendo por essa perda.
Alguns comportamentos
em pais enlutados são também considerados como naturais ao vivenciar
esse tipo de luto tais como a idealização do filho morto, encontrar
defeitos nos filhos vivos de outras pessoas e/ou de seus próprios filhos
sobreviventes. Há ainda a existência de sentimentos de culpa, sensação
de impotência, fracasso, incapacidade e a crença muitas vezes de que os
cuidados com o filho que se foi não foram suficientes e que não se
conseguiu protegê-lo como deveria.
Certamente, quando um filho
morre há toda uma transformação individual e familiar que trará
diferenças significativas no porvir da vida. Conseguir dar continuidade e
um novo sentido à (esta nova) vida exige, por parte dos pais que ficam
um investimento pessoal muito grande e isso requer apoio, compreensão,
respeito e cuidado para com cada pai e mãe enlutados. Dessa forma, é
possível que haja a reorganização de sentimentos, valores e crenças, e,
aos poucos, cada um vá encontrando sua forma singular de vivenciar esse
tão difícil e doloroso luto até chegar um tempo em que a dor intensa se
vá e permaneça a saudade, fiquem as lembranças dos bons momentos e a
alegria de ter sido mãe/pai de um filho muito amado e querido.

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